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Após Mundial, judoca do Haiti vira inspiração: 'Isso não se compra'

globoesporte.com
Por Thierry Gozzer e Raphael Andriolo

Josue Deprez, de 31 anos, começou no esporte aos 14 anos, em uma comunidade pobre do país, e vive há oito nos EUA, onde trabalha e treina


Josue Deprez é um dos principais atletas do Haiti
(Foto: Ernesto Sempoll)

O pequeno corredor pelo qual os judocas tinham que atravessar para deixar a área de luta e seguir para os vestiários do Maracanãzinho era escuro, coberto por uma lona de proteção e cheio de seguranças. Por lá passavam vencedores e derrotados. Alguns rindo, outros chorando. Quem viu Josue Deprez andar por aqueles poucos metros, porém, demorou a decifrar o resultado de sua luta. Mesmo eliminado antes de chegar à finais, o judoca deixou o Mundial do Rio de Janeiro sentindo-se um vencedor.

Aos 31 anos, Josue nasceu no Haiti, país mais pobre das Américas, com 45% da população analfabeta e que em 2010 sofreu um dos maiores terremotos da história, com força de 7 graus na escala Richter, deixando 200 mil mortos, na maior crise já enfrentada pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde que a entidade foi criada. Para ele, estar no Mundial de judô, ao lado dos melhores do mundo, e ter conseguido duas vitórias nas primeiras lutas, foi suficiente para mostrar ao mundo que não há pobreza que consiga acabar com um sonho.

- Muitas coisas tristes estão acontecendo no meu país. Mas somos um povo que sempre consegue se reerguer. Não desistimos. Buscamos novas formas, situações e damos a volta por cima. O país já está sendo reconstruído, recomeçando, e penso que se você corre atrás e persiste, pode começar de novo - disse o judoca.

Exemplo para as crianças do Haiti

Josue nasceu em uma comunidade pobre, próxima à capital Porto Príncipe, e começou no judô aos 14 anos. Em 2005, aos 23, em busca de melhores oportunidades e treinos profissionais, deixou o Haiti. Um ano antes, o exército rebelde tinha tomado o norte do país, espalhando o terror. Recebido em Miami, nos Estados Unidos, Josue queria evoluir e defender sua pátria.

- Fui para os Estados Unidos porque em alguns momentos da sua vida você precisa mudar, buscar novos caminhos, para ter um melhor treino, que não tinha no Haiti, uma melhor vida. Mas o meu país segue no meu coração e sempre irei representar o Haiti.

Josue Deprez gostou da sua participação no Mundial do Rio de Janeiro
(Foto: Thierry Gozzer)

Um dos atletas de maior renome do país, Josue Deprez sabe que sua história de vida é exemplo de superação e vitória para as crianças do Haiti. As "porradas" que levou da vida, como a perda de amigos no terremoto, por exemplo, o mantêm com os pés no chão. Mesmo sendo ídolo para muitos em sua terra-natal, ele quer mesmo é passar a mensagem de que tudo é possível.

- Isso não se compra, você ganha o direito de ter, chegam até você. Eu digo isso sempre para as crianças da vizinhança pobre em que nasci. Minha vida no judô inspira as crianças de lá, inspiram meus parentes, pais, e também o meu país. Eu sou muito orgulhoso disso - garantiu.

Judoca trabalha e treina

Eliminado no Rio, Josue Deprez quer ser exemplo
para crianças do Haiti (Foto: Ernesto Sempoll)

Ao contrário de grande parte dos judocas que disputaram o Mundial do Rio, o haitiano também precisa trabalhar para se manter nos Estados Unidos. Ele criou um clube de judô, onde dá aulas, em sociedade com um brasileiro, responsável pela parte do jiu-jítsu. Só assim consegue pagar as contas no fim do mês.

- Eu também trabalho. Sou profissional, mas tenho outros negócios. Trabalho como empresário e dou aulas de judô. É mais difícil para mim, mas são sacrifícios que você precisa fazer para continuar a ter resultados. Vou trabalhar de manhã e quando volto, pratico o judô. As pessoas depois do trabalho jogam futebol, basquete, e eu pratico judô (risos).

Seu sonho agora é voltar ao Rio de Janeiro em 2016, nas Olimpíadas. Ele já esteve aqui em 2007, nos Jogos Pan-Americanos, quando foi derrotado por Leandro Guilheiro logo no primeiro combate, por ippon.

Apesar da derrota, Deprez sorri ao dar entrevistas 
na zona mista da imprensa (Foto: Thierry Gozzer)

- Definitivamente quero estar no Rio de Janeiro em 2016. Antes, vou dar uma parada, estudar, e depois voltar a treinar forte para estar nos Jogos Olímpicos. Com certeza estarei no Rio de Janeiro.

Duas vitórias no Mundial

Esse ano, ao contrário do Pan-Americano, o judoca venceu as duas primeiras lutas por ippon, na estreia, diante de Caetano Sandango, da Angola, e depois contra o uruguaio Helios Derze, até ser derrotado por ippon pelo ucraniano Serhiy Drebot, dando adeus ao Mundial.

- Foi bom para mim. Estive aqui em 2007, e não tive um bom resultado, perdi na primeira luta. Agora não. Lutei com mais afinco e consegui ir mais longe. Estou feliz por estar no Brasil, porque tenho a torcida do meu lado e vivo uma experiência diferente.

Além do judô, onde compete internacionalmente desde 2005, Deprez também é faixa preta de jiu-jítsu brasileiro.

- Pratico o jiu-jítsu brasileiro, sou faixa preta, inclusive, e treino em um clube brasileiro em Miami. Tenho um clube de judô lá, o "Deprez Judo", e trabalho junto com um brasileiro lá. O nome dele é Guilhermo. É o meu sócio. Eu trabalho com o judô, e ele com o jiu-jítsu. Primeiro eu faço a aula dele e depois ele vem aprender a derrubar as pessoas na minha aula (risos).

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