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Haiti: 3 anos após terremoto, 1 milhão ainda precisam de ajuda humanitária

Rede Brasil Atual

Subnutrição e falta de moradias agravam problemas sociais, políticos e econômicos de um país que parece eternamente em reconstrução


publicado 19/05/2013



Porto Príncipe – No horizonte haitiano, surpreende a mistura de edificações em construção com escombros que ainda restam do passado. Um passado muito recente. Em 12 de janeiro de 2010, o Haiti foi castigado pelo terremoto mais devastador de seus últimos 200 anos. Mais de 220 mil pessoas morreram, 300 mil ficaram feridas e mais de 1 milhão perderam suas casas. Se antes o país já sofria com muitas carências e vivia na austeridade, com o desastre ficou marcado como um dos mais pobres do Hemisfério Norte.

Pouco depois de três anos, qual é o diagnóstico da situação atual?

Seu avanço é lento e frágil. "Até o momento, se reduziram as pessoas que vivem em acampamentos. Passaram de 1,5 milhão, número após o terremoto, para 358 mil; houve a remoção de quase todos os escombros nas ruas da capital, Porto Príncipe, e foram construídas casas, ruas e empresas", enumera Damien Berrendorf, diretor associado no Haiti da Oxfam, organização internacional de promoção do desenvolvimento e luta contra a fome.

Segundo as Nações Unidas, pouco mais de 1 milhão de haitianos seguem necessitando de ajuda humanitária. Nesse balanço estão contabilizadas as 358 mil pessoas que vivem nos acampamentos improvisados; 500 mil com alimentação insuficiente e 74 mil menores de 5 anos desnutridos.
Um país muito vulnerável

A esses números é preciso somar a alta probabilidade de o Haiti voltar a sofrer uma seca que prejudicará suas colheitas, além dos danos causados pelas tempestades tropicais Isaac e Sandy, no final de 2012.

O país caribenho é muito vulnerável e vive acossado por desastres naturais: furacões, epidemias, terremotos e crises de alimentos. Sua frágil segurança jurídica e institucional e sua economia flutuante não são suas principais virtudes. Para a maioria da população é muito limitado o acesso a serviços básicos como água, saneamento, educação e saúde.
Apesar disso, o processo de reconstrução do Haiti segue avançando, embora de forma lenta.

No último ano, o governo de Michel Martelly lançou um plano de reassentamento e retorno que ajudou mais de 53 mil pessoas a voltarem para suas comunidades e bairros. "Ele fez isso através de transferências de dinheiro, subsídio de rendas e investimentos em bairros para melhorar o acesso a serviços básicos", explicou Damien Berrendorf.

Com os esforços institucionais e das organizações humanitárias, 18 mil famílias puderam beneficiar-se desse apoio, e outras 19 mil devem fazer o mesmo em um futuro próximo. "O governo elaborou também uma política de habitação e lançou um mecanismo de coordenação para discutir os temas de habitação com todos os atores envolvidos. No entanto, o número de imóveis permanentes continua sendo muito baixo, a disponibilidade de casas não corresponde à demanda e se faz necessário um aumento de investimento nos bairros para que a população tenha acesso aos serviços básicos", acrescenta o diretor associado da Oxfam.

De fato, assentamentos espontâneos como o de Canaan, nos arredores de Porto Príncipe, seguem crescendo, e a migração interna entre um acampamento e outro é frequente, segundo explica o especialista.

A Oxfam, que é constituída por 17 organizações que trabalham em 92 países, lembra que antes do terremoto "só 51% da população urbana e 17% da população rural tinham acesso a serviços de saneamento básico como água corrente. O terremoto acabou com a pouca infraestrutura existente e os limitados serviços públicos".

Como se isso fosse pouco, sobreveio uma epidemia de cólera em outubro de 2010 e duas tempestades tropicais dois anos depois. Damien Berrendorf aplaude a iniciativa governamental de estimular a frágil economia, como, por exemplo, a inauguração do parque industrial Caracol, no norte do Haiti, mas acredita que é "necessário desenvolver um modelo econômico que possa fortalecer o setor agrícola do país. Isso reduziria a insegurança alimentícia e criaria empregos".

O especialista consultado pela Agência Efe analisa o porquê da dificuldade para avançar: "A baixa capacidade do Estado de criar receita, a corrupção e a dependência de ajuda internacional para financiar seu orçamento limitam a sua capacidade de investir e implementar políticas nacionais. A instabilidade política das últimas décadas e a concentração de poder nas elites econômicas e políticas contribuem para que a sociedade haitiana seja uma das mais desiguais no mundo".

Para pôr fim a essa situação de dependência, Berrendorf opina que o Governo deveria "estabelecer as condições econômicas necessárias para o desenvolvimento de pequenas e médias empresas, melhorar o acesso à formação profissional e fornecer microcréditos e microsseguros. Especialmente nas áreas rurais".


Além disso, acrescenta, é necessário "incentivar a economia e reduzir a pobreza, o que significa melhorar a produção e a produtividade da agricultura em pequena escala. O governo necessita também desenvolver mecanismos de preparação para crises de alimentos (reservas de alimentos e reservas de materiais agrícolas como sementes e fertilizantes) para diminuir o impacto a longo prazo de eventos naturais como furacões".

Em seu afã por "ensinar o haitiano a pescar", o gabinete de Martelly lançou o Plano Nacional de Investimento Agrícola, que conta com US$ 790 milhões em um prazo de cinco anos. Assim mesmo, em 2012 foi criado um programa chamado Aba Grangou (“Contra a Fome”, em crioulo), que tem como objetivo a melhora da segurança alimentar, especialmente para as pessoas mais pobres.

Trata-se de uma extensa iniciativa composta por subprogramas que incluem redes de seguridade social para melhorar o acesso a alimentos para os mais vulneráveis; programas de investimento agrícola para aumentar a produção local e programas para melhorar o acesso a serviços básicos. Em conjunto, esses subprogramas buscam revitalizar o setor agrícola com ênfase no aumento da produção local.



Questionado se 2013 será o ano da verdadeira reconstrução do Haiti, Berrendorf responde: "Embora o desejo da Oxfam seja assegurar uma população residente no Haiti, depois de mais de três décadas de abandono coletivo, gestões ruins, um terremoto e furacões como os que assolaram o país não é possível pensar que se possa reconstruir um país em um ano".

Agora as esperanças repousam em Michel Joseph Martelly, mais conhecido como “Sweet Micky”, um músico e ativista que é o presidente do Haiti desde maio de 2011.

O Haiti nasceu com o sonho de ser livre. E quando conseguiu livrar-se do jugo francês, em 1804, para se transformar na primeira república negra independente, começou o seu martírio.

Como disse o poeta, jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano em seus versos: "O nascimento da independência e a morte da escravidão, façanhas negras, foram humilhações imperdoáveis para os brancos donos do mundo".

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