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A força do Haiti

Diário do Nordeste



Livro organizado pela jornalista Adriana Santiago mostra um país para além da pobreza e das tragédias naturais


O material, fruto de um projeto da Adital, é ricamente ilustrado com imagens que mostram um povo de cultura rica e forte instinto de sobrevivência: exemplo de união e determinação diante de enormes dificuldades fotos: reprodução

A cultura é a verdadeira força para a reconstrução nacional do Haiti. A constatação é do padre Ermanno Allegri, diretor da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital), que confessa ter ficado chocado ao visitar pela primeira vez o país, um dos primeiros das Américas a se tornar independente, no início do século XIX, mas que tenta até hoje se livrar do jugo de colonizadores, a exemplo das forças de Napoleão Bonaparte, vencidas em 1804, data da independência. No entanto, a luta não terminou com os franceses. Ao longo dos anos, vieram se juntar outros "donos" da ilha Hispaniola, cujo povo assistiu à dizimação total de sua população indígena e seu povo ser escravizado, mas que nem por isso sucumbiu. Pelo contrário, tenta, em plena época pós-colonial, lutar pela "refundação". Dessa vez, sem derramamento de sangue, mas usando as manifestações artísticas e a força da organização dos movimentos sociais - mulheres, comunicação alternativa e economia solidária, entre outros - para acabar com o estigma de que o Haiti é sinônimo de dor, calamidades e ajuda humanitária, esta última, nem sempre é revertida em benefício desse povo, que tem no vodu (culto religioso) sua principal manifestação cultual, influenciando as demais linguagens artísticas como pintura, literatura e escultura.

Para trazer à tona um pouco dessa história, mas com um olhar no futuro, durante 18 meses, um grupo de jornalistas brasileiros e haitianos, sob a coordenação da Adital, caiu em campo para escrever o livro "Haiti por si: a reconquista da independência roubada", cujo lançamento acontece, nesta quinta, às 15h30, durante audiência pública, no Auditório Deputado Almir Pinto, no complexo das Comissões Técnicas, Assembleia Legislativa do Ceará. Numa rápida leitura pelas 180 páginas da obra, ricamente ilustrada com flagrantes de gente em movimento, quer trabalhando ou fazendo arte, é possível comprovar que o trabalho da equipe, coordenado pela jornalista Adriana Santiago, responsável pela organização da obra, foi cumprido. Na realidade, os seis capítulos do livro de reportagens, como define Adriana, mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professora de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), fruto de 18 meses de trabalho, revela o esboço de um outro Haiti.

Com prefácio de Adolfo Pérez Esquivel, arquiteto, escultor e ativista de direitos humanos argentino, apresentação do padre Ermanno Allegri e contribuição de Frei Betto, o livro mostra um Haiti das possibilidades. O primeiro capítulo conta um pouco sobre a história do Haiti, passando pela catástrofe que acometeu a capital Porto Príncipe, em 12 de janeiro de 2010, seguida de uma epidemia de cólera. Além de abordar a soberania alimentar, alternativas de desenvolvimento econômico e social, a exemplo das casas de farinha, beneficiamento de leite, a cultura e a construção da resistência, enfatiza o trabalho dos movimentos de mulheres, rádios comunitárias e a democracia participativa. Merece destaque o capítulo 5, intitulado "A cultura como vitrine", abordando o "vodu", manifestação religiosa que já foi proibida, fazendo com que seus praticantes fossem mortos, além do artesanato em ferro. Aliás, segundo Nélio Joseph, que assina o capítulo dedicado às manifestações culturais, é no campo das artes que o Haiti se torna competitivo no contexto internacional. Ele declara que a literatura haitiana se afirma como uma das mais "borbulhantes e visíveis do Caribe".

Adriana Santiago conta que foi necessário entender o Haiti, país formado por vários povos africanos que foram escravizados, como um lugar além das imagens de terremoto e desgraças. Na primeira visita, em 2011, pensou que fosse encontrar apenas gente precisando de ajuda, fraca. Ficou surpresa ao "perceber a força interna" que brotava daquela gente, que usa os escombros deixados pelo terremoto para oferecer a sua arte. Destaca a construção histórica daquela pequena ilha, com uma população estimada em 10,5 milhões de pessoas, ocupando território que corresponde a um terço da área do Ceará, que possui 8 milhões de habitantes. "Era um lugar de índios que foram dizimados e de negros que foram levados para o tráfico", pontua, afirmando não compreender, logo à primeira vista, a disparidade entre o Haiti e a República Dominicana, que fica logo ali e tem vida melhor. "Esses paradoxos chamaram a atenção da gente", diz. Daí a sua primeira indagação: "onde estão os haitianos?". O discurso que deveria ser assumido pelos habitantes da pequena ilha, que respira cultura por todos os lados, é ocupado pela Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo. Depois das observações iniciais, surge a ideia central do livro: "a refundação do Haiti", país que possui história bastante particular, sendo alvo de interesses de vários colonizadores, pagando caro por sua independência, um acordo com a França o qual passaram 100 anos pagando, diz a jornalista. Localizada numa zona estratégica perto de Cuba e dos Estados Unidos, o Haiti também é alvo de cobiça dos franceses e espanhóis.

As manifestações artístico-culturais constituem um dos principais patrimônios dos haitianos. "A vida deles é baseada no crioulo haitiano", conta, citando o lakul, que constitui formação de aldeias com terrenos destinados às conversas, momento de socialização onde partilham uma das suas principais riquezas: o vodu, forma de religião. "Tiveram sua cultura destruída, sendo proibidos de falar o crioulo e praticar o vodu". Adriana afirma que os haitianos se destacam em diversos campos da produção artística mundial, sobretudo na literatura. "Se eles têm esse valor no campo das artes, faltam políticas públicas", observa, esperando que o livro ajude nessa construção de um novo Haiti. O material reúne ousadia, pesquisa e força de vontade. "Queríamos mostrar o que está sendo feito para a construção da cidadania e da democracia no Haiti", resume o padre Ermanno Allegri.

Mais informações:

Lançamento e audiência pública sobre livro "Haiti por si: a reconquista da independência roubada", hoje, às 15h30, no Auditório Deputado Almir Pinto, complexo das Comissões Técnicas, Assembleia Legislativa do Ceará, Avenida Desembargador Moreira, 2807, Dionísio Torres. Preço: R$ 45, no site adital.com.br

IRACEMA SALES
REPÓRTER

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