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Entrevista do Presidente Haitiano, Michel Martely, ao Jornal "O Globo"

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PORTO PRÍNCIPE - Dois anos após o terremoto que destruiu o país, o presidente haitiano, Michel Martelly, afirma que a tragédia está começando a ficar para trás para o mundo, mas que essa "realidade ainda permanece para a população do Haiti". Martelly recebeu o GLOBO na segunda-feira em seu gabinete, montado ao lado do Palácio Nacional, que permanece destruído. O ex-cantor popular conhecido no país como Tèt Kale (O Careca, em creole) está completando um ano no cargo.

As pesquisas do governo apontam que ele tem aprovação de 80%, por conta das ações na educação e em favor dos moradores dos campos de desabrigados. No entanto, recebe críticas de que a reconstrução do país pouco avançou.

O presidente haitiano participa no Brasil da Rio+20 e - numa postura destoante da dos líderes de muitos países - assegura que vai falar sobre "o desastre que o Haiti representa para o meio ambiente". Por isso, o evento, para ele, terá como foco buscar parcerias a fim de tentar reverter esse quadro.

O GLOBO: O ator Sean Penn disse no Festival de Cannes que o mundo esqueceu o Haiti. O senhor concorda?


MICHEL MARTELLY: O mundo é muito dinâmico. As coisas mudam a cada minuto, a cada segundo. E à medida que o terremoto vai ficando para trás, o impacto que ele teve na população do Haiti e na população mundial também vai diminuindo. Mas infelizmente a realidade permanece e ela permanece para a população do Haiti. Diria que algumas pessoas se desmotivaram porque viram que as coisas estavam se movendo devagar, outras estão vivendo momentos diferentes da época do terremoto, como alguns países que estão passando por problemas que não tinham há dois anos. E outros estão esperando para ver como o governo vai atuar.


A ajuda estrangeira se tornou insuficiente?

MARTELLY: A ajuda estrangeira nunca será suficiente. Estamos trabalhando para sensibilizar o povo haitiano, para que ele entenda que não podemos depender totalmente da ajuda de outros países. Temos de trabalhar duro. Vamos precisar de cooperação, mas compreendo que à medida que os países passam a enfrentar seus próprios problemas, conseguiremos menos dinheiro de nossos parceiros.


O Brasil continua um bom parceiro?

MARTELLY: Eu considero o Brasil um parceiro de verdade. Vocês contribuíram muito com a Minustah, tentando manter a segurança no Haiti, e também com agricultura, esportes, educação e realizaram um investimento grande para a construção de uma usina. Claro que ainda não começamos as obras. O Brasil ofereceu US$ 40 milhões, o BID ofereceu outros US$ 30 milhões, o que nos deixa com US$ 70 milhões. Entretanto, o que falta é muito mais do que já temos.


O senhor é a favor da manutenção do projeto doado pelo Brasil para a usina de Artibonite?

MARTELLY: Energia elétrica é um grande problema no Haiti, então precisamos desse projeto. Mas não conseguimos levantar os recursos, não temos os US$ 192 milhões necessários. Então pensamos que poderia haver uma redução do projeto. Transformar esse projeto de US$ 192 milhões em outro de US$ 100 milhões. Se conseguirmos isso, teríamos uma usina menor, mas conseguiríamos avançar.


Qual sua posição sobre a emigração de haitianos para o Brasil e a política de vistos?

MARTELLY: Isso mostra o interesse que o Brasil tem pelo povo haitiano. Os haitianos são trabalhadores e, desde que tenham oportunidades, conseguem mostrar isso. Oferecer cem vistos por mês é dar essa oportunidade e também reforçar a produção no Brasil. Se são jovens, também vão querer estudar, se aperfeiçoar e depois voltar ao Haiti. Para mim, essa decisão da presidente Dilma é uma mostra da sua determinação de andar lado a lado com os haitianos.


Mas críticos dizem que o país está perdendo importantes peças para a reconstrução, como professores, que se tornam mão de obra barata no Brasil...


MARTELLY: Eu não acho que essa seja a melhor forma de enxergar a questão. Se esses haitianos quiserem partir, têm o direito. Você não pode impor que fiquem aqui e não desfrutem dessa política. A questão também envolve oferecermos algo para que eles escolham ficar no Haiti.


Os países que atuam no Haiti já começaram a discutir a retirada da Minustah. O senhor considera prematuro?


MARTELLY: Não podemos falar apenas sobre a retirada da Minustah. Precisamos acrescentar a questão da habilidade da Polícia Nacional. Isso não pode ser apenas a decisão de um lado, do tipo "acabou o tempo e a Minustah tem de ir embora". Precisamos pedir uma renovação do período de estada da Minustah. Isso porque ainda precisamos de mais policiais, mais ferramentas, mais carros, mais armas, mais treinamento, precisamos reforçar o Judiciário. Se forem necessários dois anos, ou três anos para nos sentirmos seguros sem os soldados da Minustah, então provavelmente ela deveria ficar nesse período.


Como será a participação do Haiti na Rio+20?


MARTELLY: Pretendo usar essa plataforma para falar sobre o desastre que o Haiti representa em termos de meio ambiente. Isso porque acredito que possamos identificar parceiros para trabalhar conosco e modificar essa situação. Atualmente é uma loucura o que vivemos. Temos só 1,5% de cobertura vegetal.


Como o Haiti conseguirá dar atenção para uma agenda de sustentabilidade, diante do desafio da reconstrução?


MARTELLY: Queremos tentar novas tecnologias de energia limpa, por isso estamos interessados em uma usina hidrelétrica em Artibonite. E também queremos nos reunir e fechar parcerias com a Alemanha, que domina a energia solar. O que estamos vivendo no Haiti é consequência de falta da educação do passado, da falta de sensibilidade e do desrespeito à legislação. As instituições eram tão fracas que não conseguimos preservar florestas. Precisamos de especialistas que façam sugestões e estudos.


Como avalia o seu primeiro ano de governo?

MARTELLY: Tive condições de enviar mais de um milhão de crianças para a escola - e de graça - algo que nunca havia acontecido no Haiti. E também fizemos um planejamento do sistema de transporte gratuito para as crianças, além de refeições. Continuamos a melhorar as condições dos que estavam nos acampamentos. As pessoas andavam no Haiti e viam muitas praças tomadas por barracas, mas agora estão vazias. Isso deixa claro que a vida está voltando ao normal.

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