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O Haiti segundo uma pernambucana

Jornal do Commercio

Em Caro Haiti, a jornalista Jullimária Dutra conta o que viu em dez dias no país caribenho

Publicado em 31/12/2011, às 16h13
Renato Mota
Especial para o JC


Jullimária Dutra com hatianos em Porto Príncipe
Arquivo pessoal

A vida no Haiti nunca foi fácil. A interferência internacional é uma constante. Bloqueios econômicos, deposições de presidentes, Estados Unidos e até Organização das Nações Unidas. Este último chegou para impor a paz num cenário de guerra civil, com o país tomado por milícias e gangues, principalmente em Cité Soleil, a maior favela das américas. Além do caos social, político e econômico, o país foi arrasado pelo terremoto ocorrido em janeiro de 2010, que deixou um saldo de mais de 300 mil mortos e 1,5 milhão de desabrigados. Cerca de 80% das construções de Porto Príncipe, capital do Haiti, foram destruídas. Se já era ruim antes, ficou muito pior depois.

Em busca das histórias dos haitianos antes, durante e após a tragédia, e suas relações com as tropas da ONU, a jornalista pernambucana Jullimária Dutra embarcou para o Haiti em março de 2011. O resultado dos dez dias que passou nas ruas de Cité Soleil e outras áreas de Porto Príncipe tornou-se o projeto de conclusão de curso da jornalista, que no mês passado foi publicado no livro Caro Haiti (Cepe, R$ 30). Em quase 200 páginas, Jullimária reúne relatos de moradores, repórteres e militares que tiveram suas vidas afetadas diretamente seja pelo terremoto ou pelo caos instaurado no país em consequência da destruição. São relatos, muitas vezes chocantes, do dia a dia em um dos países mais pobres do mundo.

A jornalista viajou a convite da própria ONU, e ficou hospedada dentro do forte 16, onde um batalhão de soldados brasileiros comanda o processo de pacificação no Haiti.


"Dei tanta sorte que todos os militares que estavam servindo naquela época eram de Pernambuco. No primeiro 'vixe' nos identificamos rapidamente", lembra Jullimária.

Desde 2004, mais de 10 mil brasileiros serviram no Haiti. Apesar da familiaridade com os soldados, a rotina da jornalista no tempo em que passou no Haiti não foi fácil. Acordava cedo para seguir à risca o cronograma preparado pelas Forças de Paz para que pudesse conhecer as áreas mais afetadas com total segurança. “Eles tiveram muito cuidado comigo. Era escoltada o tempo todo e nunca saía à noite, quando o perigo de um ataque era muito maior”, conta. A todo momento era obrigatório o uso de colete à prova de balas e o famoso capacete azul da ONU. “A área de Cité Soleil é o que eles chamam de Zona Vermelha, uma das mais perigosas. Se andasse desprotegida, me tornaria ‘caça-livre’, como os militares chamam”, comenta.

A forte presença militar, embora tranquilizadora, em alguns momentos tornou-se um problema durante a apuração do livro. “Não é segredo que muitos abusos cometidos pelas tropas da ONU estão sendo cometidos no Haiti. Parte da população é contra a presença dos soldados e para conhecer o lado dessas pessoas tive que pedir que minha escolta se afastasse durante as entrevistas. Íamos somente eu e o tradutor”, lembra a jornalista.

Jean Pierre Andregena, tradutor da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah), de tão presente na rotina de apuração acabou por tornar-se personagem do livro. “A história dele é impressionante. Ele já passou por muitas coisas difíceis, sendo a mais complicada delas o assassinato da filha grávida de sete meses (cena que abre o livro). Mas sua fé e sua vontade de viver são inabaláveis”, descreve Jullimária.

A primeira parte do livro, chamada Luta, se concentra nos relatos pré-terremoto de moradores e militares. Essa introdução ajuda a ambientar o leitor no cenário haitiano, além de passar dados extensos sobre a atuação da ONU no país. Segue-se então o tremor de terra, que ocupa toda a segunda parte, intitulada Morte. Embora curto, o capítulo é marcante por descrever em primeira pessoa a experiência de se ver no meio de um terremoto que atingiu 7,3 pontos na escala Richter. “Durante todo o livro procurei passar a visão dos entrevistados, independente de que lado estejam. Como narradora e repórter, procurei me deixar de fora dos textos, com exceção do último capítulo, que narra uma passagem através do meu ponto de vista”, explica a jornalista.

A parte mais extensa do livro, Reconstrução, trata da tentativa do Haiti em ressurgir como nação após a catástrofe em meio à tragédia e à fome. As histórias dos personagens são sempre pontuadas por dados oficiais e relatórios de ONGs. “Foi um trabalho intenso de pesquisa que começou antes da viagem e continuou depois que voltei ao Brasil. Para isso, contei bastante com a ajuda das pessoas que conheci lá, principalmente alguns dos jornalistas que vieram do mundo todo fazer a cobertura das eleições deste ano (2011)”, afirma Jullimária.

Alguns personagens, como Pierre e o garoto Vitor Elly, aparecem em todas as partes do livro, enquanto outras pessoas fazem apenas relatos pontuais das suas experiências. “Isso acontece principalmente com os soldados, já que o tempo de permanência é de cerca de seis meses. Mas o importante para mim era garantir fontes mais variadas possíveis”, explica Jullimária.

Durante todo processo de apuração, a jornalista conta que procurou o equilíbrio entre as diversas opiniões emitidas pelos entrevistados. “Em alguns casos tive até que omitir a identidade da fonte, para não comprometer sua segurança, relação com gangues ou soldados da ONU. Nestes casos prefiro me expor colocando essas informações no livro a expor as pessoas”, diz. São relatos que contam histórias de violência, desrespeito aos direitos humanos, fome e miséria. “Apesar disso é incrível como os haitianos estão sempre sorrindo. Eles podem não ser felizes, mas estão sempre com um sorriso no rosto e possuem muita vontade de viver”, lembra.

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