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Haiti: chefe da missão da ONU critica ONGs e elogia Brasil

O escritório de Edmond Mulet, 59, tem uma rachadura na parede, bem atrás de sua cadeira. Sobre a mesa, computador, impressora, um copo com água. De plástico. Vida difícil por lá. E desde sempre. Chefe da Minustah (missão da ONU no Haiti), Mulet ocupou o posto do tunisiano Hédi Annabi, morto no terremoto de janeiro. 

O diplomata guatemalteco diz que o país nunca esteve tão preparado como agora para as eleições em 28 de novembro. Não descarta, porém, violência na votação. E é direto ao falar da situação do país: não vê a luz no fim do túnel.

Mulet denuncia ainda a atuação desregulada de parte da ONGs que estão no Haiti. "É muito fácil dizer que você é uma ONG e achar que tem sinal verde para fazer o que bem entender. Essa é a República das ONGs. E nem todas têm boas intenções". Veja abaixo a entrevista:

Folha de S.Paulo:
 Qual é sua opinião sobre a ação do Brasil no Haiti?
Edmond Mulet
É um dos compromissos mais positivos e construtivos em anos. O Brasil realmente fez a diferença. Foi o primeiro a colocar dinheiro nos fundos para a reconstrução e para as eleições. Quando o presidente [René] Préval pediu ajuda técnica para construir uma nova hidroelétrica aqui, foi o Brasil que levantou a mão... Desde o terremoto, o Brasil já mandou mais de 300 voos com ajuda humanitária. Mais de 300 voos em nove meses! Ninguém fez nada parecido.

Folha: Você falou em paz. Haverá paz na eleição de novembro?

Mulet:
 
Não imaginamos grandes problemas. Trabalhamos com a polícia nacional e o governo para oferecer a segurança que uma eleição exige. Estamos mais bem preparados que nunca.

Folha: A ONU expressou preocupação quanto à entrada ilegal de armas, temendo que isso tivesse a ver com a eleição...
Mulet: Sim, é uma preocupação. Conduzimos investigações, e detectamos um movimento maior de entrada de armas. Não é nada em grande escala, mas algo está acontecendo. Já prendemos pessoas. Isso tem a ver também com o narcotráfico, com lavagem de dinheiro. Sempre que há um Estado fraco, ele aparece, usando o país de corredor.

Folha: Na quarta, o ministro da Saúde fez duras críticas ao papel das ONGs. O senhor tem algum comentário a respeito?
Mulet: Há várias ONGs bem organizadas, responsáveis, profissionais. E que se registram junto ao governo e apresentam relatórios periódicos, como exige a lei. Mostram de onde vem o dinheiro e para onde vai. Mas posso garantir que a maioria não faz isso. É muito fácil dizer que você é uma ONG e achar que tem sinal verde para fazer o que bem entender. Falam que há 10 mil ONGs atuando aqui. Não sei. Mas essa é a República das ONGs. E nem todas têm boas intenções.

Folha: Numa escala de 0 a 10, sendo 10 o Haiti antes do terremoto, como anda a reconstrução?
Mulet: 
Não queremos o Haiti de antes do terremoto. Não queremos as pessoas vivendo em morros, como era antes. Queremos refundar o país. O que você vê aqui no Haiti não é resultado do terremoto. É resultado do problema social que existia antes. Essa é uma oportunidade de tentar sanar esse problema histórico. Temos de fazer este país ser autossustentável. Acho que não há muitos países-membros da ONU que queiram ficar subsidiando o Haiti para sempre.

Folha: Qual seria o prazo ideal?

Mulet: 
Depende de quem assumir a Presidência. Em 20 anos, houve seis intervenções estrangeiras. Vinham e iam embora. Agora, precisamos criar instituições sólidas. E essa é a parte mais difícil, criar gente capacitada. Um terço dos funcionários públicos morreu no terremoto. E 86% dos haitianos com ensino secundário não vivem no país. Daí que a capacidade do país de tomar conta de si próprio ainda é muito baixa. Antes, havia uma luz no fim do túnel. A estabilidade política estava lá. A segurança estava lá. Havia algum investimento... Mas daí veio o terremoto. Tivemos que começar do zero de novo.

Folha: Não há mais a luz no fim do túnel?
Mulet: Ainda não vemos a luz no fim do túnel. Ainda não.

Com Folha de S.Paulo

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