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Cientistas desvendam causas da destruição causada pelo terremoto no Haiti


Além da pouca qualidade das construções e do solo frágil, a geometria do solo amplificou os estragos

The New York Times
Trabalhadores realizam busca nos escombros do Hotel Montana, que ficou totalmente destruído após o terremoto que atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe
Trabalhadores realizam busca nos escombros do Hotel Montana, que ficou totalmente destruído após o terremoto que atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe (Thomas Coex/AFP)
Quando o terremoto de magnitude 7 atingiu em janeiro a capital do Haiti, Porto Príncipe, a enorme destruição e a perda de vidas foram atribuídas basicamente a dois fatores: a proximidade da cidade à falha geológica que causou o tremor, e construções de baixa qualidade que permitiram que milhares de prédios desabassem com facilidade.
Sismólogos sabem que a geologia local também pode afetar a severidade de um terremoto, ao elevar as forças sísmicas sob certas condições. Imaginava-se que isso houvesse ocorrido ao terremoto do Haiti, já que grandes áreas de Porto Príncipe estão sobre camadas de rochas sedimentares relativamente frágeis – o que é propício para amplificar as ondas sísmicas.
Agora, um novo estudo descobriu que, além da geologia de sustentação, a geometria dos traços da superfície local também contribuiu para a intensidade do terremoto. Susan E. Hough, sismóloga da U.S. Geological Survey, e colegas encontraram evidências de que o tremor teria sido amplificado ao longo de uma estreita cadeia de rochas sólidas ao sul do centro da cidade. Sobre a cadeia ficavam um popular hotel e outras estruturas com relativa qualidade de construção, que foram destruídos.
A descoberta, publicada no site da revista Nature Geoscience, deve ajudar cientistas e engenheiros a mapear regiões da cidade sob risco em futuros terremotos, um processo chamado de microzoneamento.
Amplificação topográfica — Susan afirmou que os sismólogos conhecem há tempos o que é chamado de amplificação topográfica, e que isso poderia acontecer, mas o fenômeno costumava ser descartado como “um tipo de casualidade”. “Isso não é algo que os cientistas foram capazes de desenvolver sistematicamente”, explica. “As camadas sedimentares são mais conhecidas”.
A partir dos danos do terremoto, houve indicações de que a cadeia, no bairro de Petionville, havia atravessado um forte tremor. Susan disse que, além da destruição do Hotel Montana, onde estavam muitos visitantes estrangeiros, prateleiras contendo três toneladas de baterias, numa fábrica de celulares mais a oeste sobre a cadeia, se deslocaram mais de 30 centímetros.
Mas havia poucos dados sobre as movimentações locais de solo durante o terremoto, que matou 230 mil pessoas, segundo as estimativas oficiais. Na ocasião, disse Susan, o Haiti possuía apenas um sismômetro, um instrumento educacional que estava montado de forma inadequada.
“Quando o terremoto começou, o aparelho começou a dançar sobre seus pequenos pés”, diz ela. “Ele fez um registro, mas nada muito útil”.
Assim Susan, com ajuda de cientistas da Agência de Minas e Energia do Haiti, instalou oito sismógrafos portáteis, incluindo dois na cadeia e dois num vale adjacente, e os usou para medir movimentos do solo durante alguns dos muitos tremores secundários que seguiram o terremoto. Eles descobriram que o tremor ao longo da cadeia foi mais grave do que no vale, não podendo ser explicado por uma amplificação em rochas sedimentares que sustentam o vale.
Susan comparou o tremor ao longo da cadeia a algo que ocorre com um arranha-céu. “Se você começa a balançar uma cadeia comprida e estreita, ela oscila para frente e para trás, como um grande prédio”, afirmou ela. As ondas sísmicas refletem internamente na estrutura geométrica da cadeia, combinando-se para produzir picos maiores de forças, um processo chamado de interferência construtiva.
Modelos precisos — Dominic Assimaki, professora da Georgia Tech que revisou o artigo de Hough para a Nature Geoscience, mas não se envolveu na pesquisa, afirma que as descobertas devem ajudar no desenvolvimento de modelos mais precisos de processos de amplificação durante terremotos.
“Analiticamente, o problema foi estudado de forma bastante extensa, mas os modelos ainda são bastante idealizados”, afirma Dominic.
À medida que as simulações por computador ficam mais detalhadas e comparam dados do mundo real de forma mais precisa, elas podem ser usadas para desenvolver diretrizes para construções resistentes a terremotos – dizendo quanto movimento de solo pode ser esperado numa cadeia de certa altura ou inclinação, por exemplo.
“O objetivo é traduzir descobertas de pesquisas em parâmetros simples que um projetista possa utilizar”, afirmou Assimaki.
Terremotos inevitáveis — Especificamente no Haiti, segundo Susan, cientistas desenvolvendo mapas de microzoneamento agora podem incorporar a seus trabalhos os efeitos topográficos vistos ao longo da cadeia, ajudando o país a se reconstruir de forma adequada e ser menos afetado pelo próximo terremoto. E futuros terremotos na mesma falha, ou perto dela, são inevitáveis, dizem os sismólogos.
“Potencialmente, podemos dizer, ‘Você pode construir aqui, mas não ali’”, afirma. Mesmo sobre a cadeia, com seus fortes temores, algumas casas e edifícios bem construídos e ancorados sobreviveram ao terremoto praticamente sem danos.
“Isso mostra que é possível construir de forma segura, mesmo em zonas como aquela”, explica. “Você só precisa saber o que está enfrentando”.
“A boa notícia é que podemos caracterizar os tremores”, diz Susan. “Podemos trabalhar tendo esses elementos em mente”.

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